As garotas do calendário
Martha Medeiros
Não custa lembrar que a única fórmula da juventude que funciona mesmo é ter saúde e bom humor.
Alguns filmes americanos são muito bons, pena que incutem no mulherio metas irrealistas. Ficam todas tentando parecer a Nicole Kidman, a Cameron Diaz ou a Uma Thurman, o que deve dar um trabalho danado. Por isso, nada como um bom filme inglês para nos trazer de volta à realidade e lembrar que a única fórmula da juventude que funciona é ter saúde e bom humor.
Eu já havia adorado o filme O Barato de Grace, que conta a história de uma mulher na meia-idade, moradora de um vilarejo no interior da Inglaterra, cujo marido morre e lhe deixa um punhado de dívidas como herança. Como último recurso para salvar a casa onde mora, ela, uma jardineira de mão cheia, acaba topando responsabilizar-se por uma plantação de maconha, e a partir daí é diversão garantida.
Pois o mesmo diretor de O Barato de Grace, Nigel Cole, voltou a escolher a mulher de meia-idade, sem atrativos espetaculares, para protagonizar sua mais recente obra. Só que agora não é uma, são várias mulheres. Garotas do Calendário é programa obrigatório para quem gosta de filmes divertidos, humanos e inteligentes, sem parafernália tecnológica nem lição de moral no fim. Baseado num fato verídico, conta a história de algumas senhoras entre 50 e 70 anos, moradoras da zona rural de Yorkshire, que resolvem levantar fundos a fim de investir no hospital da região, e para isso decidem posar nuas para um calendário.
As fotos, diga-se, não mostram nus frontais, é tudo sugerido, porém ultra-sexy, desmistificando esta história de que só há um tipo de padrão de beleza e ele só está disponível para jovens. Mas isso nem é o mais importante do filme. O que realmente excita é ver mulheres libertando-se de sua inibição, rejuvenescendo-se através do riso e da amizade, escapando de estereótipos e possibilitando que seus maridos e filhos as enxerguem de uma forma diferente – e tudo isso, repare bem, não atrás de fama e sucesso, mas por beneficência.
No entanto, a fama e o sucesso acabam chegando de surpresa, e a partir daí o filme ganha nova perspectiva. As mulheres passam a ser assediadas pela imprensa, gravam entrevista para o Tonight Show em Los Angeles e são convidadas a estrelar comerciais de tevê, tudo o que uma modelo de pôster central sonha na vida. Ainda bem que o conceito de sucesso não é o mesmo para todos, e nisso o filme também nos traz de volta à realidade. Sucesso é estar de bem consigo mesmo, é valorizar seus afetos, é se divertir com o inusitado da vida, e não ficar a mercê de sanguessugas.
Garotas do Calendário: anote. Um filme irreverente, que mostra como as noções de decoro e pudor podem ser reavaliadas, e que nos deixa face a face com as contribuições do tempo: que ele passe, ora bolas, e tire dos nossos ombros todas as culpas e angústias que a gente bobamente acumula. Segundo um personagem masculino do filme, as mulheres de Yorkshire são como as flores, é na etapa final que ficam mais gloriosas. Simpático, esse cara. Não sei se a pós-meia-idade é a fase mais gloriosa, mas deveria ser a mais leve. E isso não se injeta, se conquista.
Domingo, 3 de outubro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.